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Quarenta anos depois, 914 pode voltar como Porsche de entrada e "raiz"

Rodrigo Mora

14/02/2020 04h00

(SÃO PAULO) – Uma entrevista realizada pelo departamento de comunicação da Porsche com Michael Mauer mostra o chefe de design da marca mergulhado na história do 914. Sobre a mesa, um modelo em escala reduzida, fotos e todo tipo de arquivo que remonta aos primórdios do esportivo, cujos primeiros esboços nasceram em 1964, cinco anos antes do lançamento.

Michael Mauer mergulha nos arquivos do 914 (Imagem: divulgação)

Mauer discorre sobre os primeiros esboços, encantado com a diferença de estilos entre eles, um mais elegante, outro mais esportivo. Fala sobre a clara influência do 550 Spyder e conecta o conceito de motor central do 914 à essência da Porsche – o 356 número 1 e os primeiros carros de corrida carregavam o motor logo atrás do motorista, afinal.

Primeiro esboço do 914 foi desenhado por Heinrich Klie, em 1964 (Imagem: divulgação)

Papo vai, papo vem, e quase no final da entrevista Mauer solta a primeira bomba: "acho fascinante como Ferdinand Alexander e sua equipe conseguiram trazer esse estilo moderno e reduzido, de maneira semelhante à transição do 356 para o 911. Quanto mais eu trabalho com o 914 – é exatamente por isso que estou lutando agora, uma abordagem reduzida e purista. Integrando coisas, nem uma linha a mais".

Em 1967, Ferdinand Alexander "Butzi" Porsche apresenta sua proposta (Imagem: divulgação)

Trabalhando com um 914? Sei. "Lutando" por um novo 914, de abordagem reduzida e purista, é isso?

Daí vem a última pergunta: "existe um futuro para o 914? Ou ele pelo menos fornece inspiração?"

Mauer dá uma ensaboada, diz que a discussão sobre um Porsche de entrada sempre está sobre a mesa na companhia, mas há interpretações divergentes entre as lideranças da empresa, que acha excitante a ideia de um Porsche mais acessível não em termos de preço, mas em tamanho – um carro quase sem eletrônica, predominantemente mecânico, puro – e que do ponto de vista do departamento de vendas um Porsche básico muito mais barato seria a coisa certa a se fazer, etc.

Por fim, crava: "eu acho que chegou a hora. Isso seria tipicamente Porsche novamente".

Fica a dica, como dizem.

Polêmico

Apresentado durante o Salão de Frankfurt de 1969, o 914 nasceu de uma parceria entre Volkswagen e Porsche (que, vale lembrar, eram próximas desde meados dos anos 1930, quando Ferdinand Porsche fora contratado por Adolf Hitler para desenvolver o "carro do povo", o Fusca). A primeira buscava um substituto para o Karmann Ghia Type 34, enquanto a segunda precisava de um esportivo acessível.

Repare no símbolo da VW grudado com o da Porsche (Imagem: divulgação)

Projetado pela Porsche, construído pela Karmann e com motor da Volkswagen, o 914 ainda era vendido numa rede conjunta de concessionárias. Nos EUA, levava apenas o emblema da marca de luxo. Na Europa, os logotipos se juntavam, o que incendiava a polêmica.

 

Repare no símbolo da VW grudado com o da Porsche (Imagem: RM Sotheby's/divulgação)

As vendas começaram no início de 1970. Na versão de entrada, o 1.7 litro – primeiro motor da VW com injeção – rendia 80 cv, o que aliado ao peso baixo (900 kg) levava o modelo aos 100 km/h em 13 segundos e à velocidade máxima de 177 km/h. O 914/6, com um 2.0 seis-cilindros de 110 cv emprestado do 911 T, veio pouco depois. Aceleração e velocidade máxima melhoravam, indo a 9,9 segundos e 201 km/h, respectivamente.

(Imagem: divulgação)

Apesar das controvérsias, o 914 tinha seus apelos. O motor era central, instalado entre os bancos e o eixo traseiro, o que contribuía para a distribuição de peso – e portanto para o equilíbrio e a estabilidade do carro. Não fora o primeiro Porsche nessa configuração – o 550 veio antes –, mas sim o precursor na produção em série desse formato, presente hoje em Cayman e Boxster. E desde a versão básica tanto a suspensão dianteira quanto a traseira eram independentes.

Raio-x do 914/6 (Imagem: divulgação)

O teto removível também esbanjava charme, podendo ser acomodado num compartimento traseiro. O interior era espartano, mas espaçoso, além de oferecer boa ergonomia para o motorista. Com dois compartimentos de bagagem, um na frente e outro na parte traseira, somavam-se 460 litros. 

(Imagem: RM Sotheby's/divulgação)

Em 1972, o 914/6 saiu de linha após 3.338 unidades produzidas. No ano seguinte, um 2.0 de 101 cv se juntou à gama. Para a linha 1974, o 1.7 teve sua cilindrada aumentada para 1.8, saltando para 86 cv.

Houve ainda o 914 S, equipado com um 3.0 de oito cilindros de 300 cv. Mas somente dois exemplares foram construídos: um ficou com Ferdinand Piëch, chefe de desenvolvimento à época, e o outro foi  presente de 60 anos para Ferry Porsche. E quase existiu um 916: 11 protótipos receberam os seis-cilindros mais potentes da época, vindos do 911 S e do 911 RS, com 190 cv e 210 cv, respectivamente.

914 S: teto rígido e um V8 de 300 cv (Imagem: divulgação)

Ao todo, 118.969 exemplares foram fabricados até 1976, quando foi substituído pelo 924 – outro Porsche que sofreu com a rejeição. 

Sobre o autor

Rodrigo não Mora apenas nos Clássicos. Em sua trajetória no jornalismo automotivo, já passou por Auto+, iG, G1, Folha de S. Paulo e A Tarde - sempre em busca do que os carros têm a dizer. Hoje, reúne todos - clássicos e novos - nas páginas das revistas Carbono UOMO e Ahead Mag e no seu Instagram, @moranoscarros.

Sobre o blog

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigo mobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.

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