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Dida

Rodrigo Mora

27/02/2020 19h29

(SÃO PAULO) – Não era o tipo de conversa que esperava ter no dia do meu aniversário, mas foi assim:

– Fala, camarada. Liguei na Volks e me disseram que você está afastado. Está tudo bem?

– Fala, camarada. Beleza? Sim, estou afastado. Estava com problema na ECU! Fiz uma cirurgia para remover um tumor. No cérebro. Na hipófise, na verdade. Adenoma hipofisário. No meu caso, estava grande, A cirurgia correu muito bem e a situação foi mais favorável que o esperado. Houve algum vazamento de liquor, logo controlado. Tudo certo. E a análise do tumor comprovou sua "benignidade". Tenho passado os dias em casa. Da cama para a sala; da sala para a cama. Com passeios no quintal. Sem esforço. O lado bom é que tenho tempo para tocar as guitarras e ouvir música. Pior é ficar sem dirigir… Hoje vou funcionar a Parati. Está parada há mais de 10 dias.

Bateu um susto. Essa foi por pouco. Já pensou se você morre antes do churrasco que ensaiamos há anos para juntar os moleques, já que Bernardo, João e Heitor têm mais ou menos a mesma idade? Aproveito e conheço a Parati. É só ter cuidado para não falar de carro velho sem parar e entediar a Adriana e a Daniela.

Se bem que o Luís Felipe Figueiredo não era do tipo que entediava. Ao menos para mim, havia um sorriso maior que a cara a cada encontro com o "Dida". Pode ser efeito do luto, mas hoje acho que eu lia algo como "calma, ainda tem muita vida pela frente para o churrasco, para relembrar aquele lanche de batata frita com maionese pós-balada em Bruxelas ou o tiroteio e o perrengue na fronteira quando fomos de Amarok V6 para o Atacama, para você me ver tocar Neil Young com a minha banda, para você me passar aquela foto de mim ao volante do Santana Executivo, para fazermos um test-drive juntos ou para você me vender o Omega".

E o quanto me azucrinava pelo tal Omega que eu tinha? "E meu Omega, tá cuidando bem dele? Curte aí, você é um bom proprietário, ele está em ótimas mãos. Mas lembre-se: sou o próximo!". Um dia quase foi, mas o dinheiro acabou indo para um Passat Variant, para o bem-estar da família. Imaginem o cara, assessor de imprensa da Volkswagen, chegando lá de Chevrolet. 

O aperto de mão e o abraço sempre firmes me diziam também sobre a firmeza do seu caráter e da sua coragem. Porque não é qualquer um que perde o filho de dois anos e segue sorrindo o sorriso que não cabe na cara. Nunca tive coragem de perguntar o que havia acontecido com o Pedro, que morreu antes da nossa amizade nascer.

Pouco mais de um mês depois daquela conversa no dia do meu aniversário, Dida e eu nos encontramos para que me apresentasse o acervo de clássicos e protótipos da Volkswagen. Detalhe: um dia antes do evento oficial, que reuniria outros colegas jornalistas. Este prestígio veio dele. Não teria acontecido sem o aval de seus superiores, mas não haveria o que avalizar sem a batalha dele por este modesto blog. Se eu soubesse que seria nosso último encontro…

E não foi a única canja que ele me deu. A primeira foi contar a história do Santana EX da Engenharia da VW. Que, justamente no evento do acervo, soube que só voltou a funcionar e ter alguns detalhes de acabamento recompostos depois do meu pedido pra matéria. E teve, claro, dedo dele aí.

Não faço a menor ideia de onde você está agora, Dida. Mas duvido que tenha carros aí. Infelizmente, camarada, vai ficar de novo sem dirigir.

Sobre o autor

Rodrigo não Mora apenas nos Clássicos. Em sua trajetória no jornalismo automotivo, já passou por Auto+, iG, G1, Folha de S. Paulo e A Tarde - sempre em busca do que os carros têm a dizer. Hoje, reúne todos - clássicos e novos - nas páginas das revistas Carbono UOMO e Ahead Mag e no seu Instagram, @moranoscarros.

Sobre o blog

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigo mobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.

Mora nos Clássicos