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"Barca" de Gusttavo Lima, Lincoln Continental carrega glamour e tragédia

Rodrigo Mora

07/09/2019 07h00

(SÃO PAULO) – Certas extravagâncias não se restringem ao campo da fantasia quando se é filho do fundador de uma das principais fabricantes de automóveis do mundo. Em março de 1939, Edsel, filho de Henry Ford, foi passar férias na Flórida (EUA) desfilando ao volante de um modelo desenhado e construído exclusivamente para ele. Então presidente da empresa, Edsel recebeu tantos elogios pelo carro que mandou produzi-lo em escala.

Assim nasceu o Lincoln Continental, que ao longo de 80 anos foi um dos carros americanos mais luxuosos, protagonizou uma das maiores tragédias na história dos Estados Unidos e conquistou milhares de fãs – entre eles o cantor Gusttavo Lima, que recentemente postou foto de um passeio com seu filho em um modelo de 1978.

Lincoln Continental Coupé 1941 (Imagem: Bonhams/divulgação)

Em dezembro daquele ano, então, o Continental começou a ser produzido como o carro topo de linha da Ford – que, vale lembrar, havia comprado a Lincoln em 1922 para ser sua divisão de luxo e concorrer com o Cadillac, da General Motors. A base era um Lincoln Zephyr, porém redesenhado e mais baixo. E no lugar do V8 havia um V12 que impressionava mais pelo tamanho do que pelos tímidos 120 cv.

Após o ataque japonês a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, a produção de carros para fins civis foi interrompida nos EUA. O Continental só voltaria a ser fabricado em 1946, para se despedir definitivamente em 1948.

Lincoln Continental Mark II (Imagem: divulgação)

Em 1956 a Ford retoma o Lincoln Continental com um objetivo claro: fazer o melhor carro do mundo. Uma linha de montagem exclusiva para o novo modelo foi construída, com um processo quase artesanal e um capricho inédito. Cada exemplar era pré-montado, apenas para checar se tudo estava em ordem. Era então desmontado e cada parte da carroceria recebia três mãos de tinta, para então ser lixada e polida a mão antes da montagem final. Cada cromado recebia um tratamento de 10 dias com jato de sal. E o couro dos revestimentos internos vinha da Escócia, porque lá as fazendas não usam arame farpado, e portanto as vacas não são arranhadas.

Logo, o Continental da segunda geração foi um dos carros mais caros do mundo na época, custando US$ 10 mil, ou cinco vezes mais o que custava um Ford médio. Apenas cerca de 3 mil unidades foram construídas até 1957, e acredita-se que a fabricante tenha tomado prejuízo a cada exemplar vendido. Também conhecida é a história de que vendedores recusavam potenciais clientes que tinham dinheiro para comprá-lo, mas não o garbo de gente como Frank Sinatra e Elvis Presley, dois célebres proprietários de modelo. 

Terceira fase do Lincoln Continental também dura pouco (Imagem: divulgação)

A terceira geração estreia em 1958 com mais modéstia. O processo de montagem artesanal dá lugar à manufatura industrial, há mais peças divididas com outros modelos da marca e requintes internos são substituídos por luxos mais convencionais. O preço do Continental cai para US$ 6 mil e as vendas melhoram. Mas, aparentemente, a Ford ainda não estava contente e aposenta o modelo em 1960.

Este Continental 1961 pertenceu a Jacqueline Kennedy (Imagem: Mecum/divulgação)

Talvez a mais brilhante, elegante, consistente e famosa geração do Continental seja a quarta, lançada em 1961. Considerado uma resposta americana aos Rolls-Royce, o novo modelo apresentava novas soluções de construção, como as portas traseiras do tipo "suicida"que se abriam no sentido contrário, ampliando a entrada dos passageiros – mesmo na rara configuração conversível. Cada motor (um 7.0 V8 de 320 cv) era levado ao limite de sua rotação por três horas, e depois desmontado para inspeção. O controle de qualidade era composto por 200 itens, e a garantia era de dois anos.

Lincoln Continental 1961 (Imagem: Mecum/divulgação)

Foi num desses que John F. Kennedy, 35° presidente dos Estados Unidos, foi assassinado, em 22 de novembro de 1963, em Dallas, no Texas. Após a tragédia, o serviço de segurança recolheu o carro, blindou e o converteu em um sedã. Hoje está no Henry Ford Museum. 

Continental no qual Kennedy fora assassinado hoje repousa no The Henry Ford Museum, nos EUA (Imagem: divulgação)

O modelo de Lima é um 1978, da quinta geração, apresentada em 1970. Para cortar custos, a Ford não mais dedicava um chassis exclusivo para o modelo, que agora compartilhava sua base com o Mercury Marquis. Sem a elegância do anterior, foi marcado por séries especiais, como Golden Anniversary, Williamsburg Edition Collector's Series – esta última marcando a despedida do modelo, em 1979, com teto solar, rádio de 40 canais e interior aveludado.

Sob o longo capô havia um 6.6 V8 ou, opcionalmente, um 7.5 V8. Não à toa, Lima disse que seu Lincoln "bebe mais que nós dois e o Leonardo juntos", em resposta ao post de um amigo no Instagram, se referindo ao consumo elevado de combustível. 

Lincoln Continental 1978 (Imagem: RM Sotheby's/divulgação)

Hoje o Lincoln Continental está na décima geração.

Lincoln Continental 2019 (Imagem: divulgação)

Sobre o autor

Rodrigo não Mora apenas nos Clássicos. Em sua trajetória no jornalismo automotivo, já passou por Auto+, iG, G1, Folha de S. Paulo e A Tarde - sempre em busca do que os carros têm a dizer. Hoje, reúne todos - clássicos e novos - nas páginas das revistas Carbono UOMO e Ahead Mag e no seu Instagram, @moranoscarros.

Sobre o blog

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigo mobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.

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