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Carro popular que quebrou regras e virou ícone cultural, Mini faz 60 anos

Rodrigo Mora

26/08/2019 14h47

(Imagem: divulgação)

(SÃO PAULO) – Há exatos 60 anos, nascia um dos carros mais revolucionários da indústria automotiva. Seus criadores – Sir Leonard Lord, executivo da BMC que o encomendou, e Alexander Arnold Constantine Issigonis, o engenheiro e designer que o projetou – planejavam apenas um carro compacto moderno, prático e barato. Mas o Mini foi além: bem-sucedido enquanto inovação tecnológica e mercadológica, acabou virando também ícone cultural e lenda do automobilismo.

Como o VW Fusca e o Citroën 2CV – apenas para citar outros modelos longevos –, o Mini é fruto de um contexto político e social. A Inglaterra dos anos 1950 ainda se recuperava dos esforços empenhados na Segunda Guerra Mundial, e portanto não havia recursos para modelos genuinamente novos e a compra de automóveis era controlada.

Alec Issigonis e sua cria, no lançamento à imprensa, em 1959 (Imagem: divulgação)

Então, o que os ingleses podiam comprar eram modelos do pré-guerra reconstruídos, geralmente obsoletos, ou os chamados "carros bolha", como o Heinkel Kabine e os Iso, BMW e Romi Isetta. Quando Sir Leonard Lord definiu as diretrizes do Mini, a ordem era fazer um carro pequeno, mas em hipótese alguma um "carro bolha".

Outro fator determinante para a existência do Mini foi a crise do Canal de Suez, no Egito. Com o bloqueio desta ligação marítima entre a Europa e a Ásia, insumos do petróleo chegavam ao Velho Continente dando a volta pelo Cabo da Boa Esperança, aumentando o tempo de viagem e diminuindo a oferta da gasolina, que então voltou a ser racionada na Inglaterra. Um carro econômico não resolveria o imbróglio político, mas aliviaria a escassez no cotidiano inglês.

Campanha de lançamento do Morris Mini-Minor e do Austin Seven (Imagem: divulgação)

Morris Mini-Minor, Austin Seven

Pensado, projetado e desenvolvido num intervalo excepcional de dois anos, o modelo foi lançado oficialmente em 26 de agosto de 1959 em duas "versões": Austin Seven e Morris Mini-Minor. As duas marcas trilharam histórias distintas – a Morris foi fundada em 1919, 14 anos depois da Austin – até 1951, quando se fundiram sob o conglomerado British Motor Corporation.

A diretrizes do projeto foram fielmente atendidas: espaço interno para quatro adultos, dimensões externas compactas, economia de combustível e preço acessível. Em outras palavras, o Mini media 3,05 metros, era equipado com um motor de 848 cc de 35 cv e custava a partir de £ 497.

Linha de produção do Mini, em Longbridge (Imagem: divulgação)

Ironicamente, o Mini não atingiu o público que mirava. A classe trabalhadora que deveria comprar aquele modelo econômico, barato e de desenho incomum não queriam justamente um modelo econômico, barato e de desenho incomum. Para esses compradores, o Mini não entregava status de modelos maiores. E se era para ser um automóvel popular, ele deveria parecer como tal.

A consequência lógica da rejeição se refletiu nas vendas: foram pouco mais de 116 mil emplacamento no primeiro ano, muito aquém das expectativas dos executivos da BMC – e do potencial do veículo.

Contudo, se a classe média não entendeu o Mini, os mais abastados, sim. Logo o Mini caiu nas graças de celebridades, artistas, roqueiros e gente "cool" da época. A lista de famosos ao volante de um Mini incluía todos os Beatles, o ator e piloto Steve McQueen e a Princesa Grace de Mônaco, entre outros. Foi a virada de mesa do Mini: no fim do anos 1960, mais de dois milhões deles estavam nas ruas e as vendas anuais chegavam a 250 mil unidades.

Mini Traveller (e seu gêmeo da Austin, Countryman) ampliava o espaço para bagagens (Imagem: divulgação)

Nos anos seguintes, o Mini foi construindo família com os modelos Moke, Traveller, Clubman e Countryman, além de passar por customizações e ganhar edições especiais. Nada se comparou, porém, ao sucesso dos modelos criados pelo projetista de carros de corrida John Cooper.

Mini Cooper Grand Prix Limited Edition (Imagem: divulgação)

Os primeiros Mini Coopers surgiram em setembro de 1961 oferecendo desempenho notavelmente superior ao do modelo básico. O motor projetado por Cooper saltava de 848 cc para 997 cc e de 35 para 56 cv, esticando a velocidade máxima de 116 km/h para 141 km/h. E a aceleração até os 100 km/h não tomava mais 30 segundos da vida do ingleses, mas sim 18 segundos. Mudanças no câmbio, agora mais curto, além de suspensões recalibradas e freios redimensionados deram ao outrora urbano e pacato Mini um espírito esportivo.

O que levou o modelo mergulhar nas competições ainda nos anos 1960. Não apenas nas de pista, como o Campeonato Britânico de Turismo, mas também num ambiente ainda mais incompatível com um carro como ele, os ralis – sobretudo o de Monte Carlo, dominado pelo Mini Cooper.

Mini Cooper aterrorizou carros maiores nos ralis, tendo mais êxito no de Monte Carlo (Imagem: divulgação)

O Mini atravessou as décadas de 1970, 1980 e 1990 com sutis atualizações estéticas e mais incisivas mudanças mecânicas – essas sobretudo para atender normas de segurança e emissões de poluentes cada vez mais rígidas.

Mas nada que transformasse seu conceito original, mantido até outubro de 2000, quando o último Mini clássico saiu da linha de produção em Longbridge, na Inglaterra, 41 anos após o primeiro exemplar.

Sobre o autor

Rodrigo não Mora apenas nos Clássicos. Em sua trajetória no jornalismo automotivo, já passou por Auto+, iG, G1, Folha de S. Paulo e A Tarde - sempre em busca do que os carros têm a dizer. Hoje, reúne todos - clássicos e novos - nas páginas das revistas Carbono UOMO e Ahead Mag e no seu Instagram, @moranoscarros.

Sobre o blog

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigo mobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.

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