Topo
Mora nos Clássicos

Mora nos Clássicos

Plymouth Belvedere 1967 com 717 cv é receita que intimida e diverte

Rodrigo Mora

24/08/2019 08h45

(BERKLEY, ESTADOS UNIDOS) – "Restomod" é o nome que se dá para o tipo de carro que, ao ser restaurado, recebe elementos mecânicos e estéticos modernos. Não é prática nova, mas tem ganhado evidência no embalo da proliferação de programas de TV (quase sempre americanos) que a cada episódio fazem apenas isso: reformam um automóvel (quase sempre americano), instalam rodas cromadas aro 28 e um sistema de som de 1.000.000 de watts.

Puristas condenam, alegando que lá se vai mais um carro poderia servir de exemplo sobre o que eram a engenharia e o design há quarenta ou cinquenta anos. Particularmente, também não me encantam. Tentam unir passado e presente, mas perdem a magia justamente por isso.

Dodge Shakedown Challenger (Imagem: FCA / divulgação)

Por isso não dei muita atenção para o Dodge Shakedown Challenger durante o Woodward Dream Cruise. Não que lhe faltassem atrativos. A pintura preta-fosca, as rodas aro 19 na frente e 20 atrás, pinças de freio e detalhes na carroceria pintados em vermelho e a entrada de ar no capô deixaram ainda mais temível a já habitual cara de mau do Challenger 1971.

E a intenção de apavorar não fica somente no visual, pois sob o capô há um motor HEMI 6.4 V8 de 492 cv, acompanhado por um câmbio manual de seis marchas emprestado do Dodge Viper. A suspensão é rebaixada e os freios são da Brembo.

Na cabine do Shakedown Challenger também há elementos para deixa-lo com aspecto de novo. Bancos em couro, volante de Viper, console central, painel…só a arquitetura original ficou.

Dodge Shakedown Challenger (Imagem: FCA / divulgação)

Era a primeira vez que a Mopar – a marca dentro da FCA dedicada à personalização, que nasceu ainda na Chrysler, na década de 1930 – deixava um seleto grupo de jornalistas dirigir aquele conceito "filho único de mãe solteira". Não desperdicei a oportunidade, mesmo estando de olho em outro carro ali.

O micro test-drive consistia em dirigir por cerca de dois ou três quilômetros pela Woodward Avenue, pegar o primeiro retorno e voltar ao ponto de partida. Nico Vardis, gerente de design da Mopar, ia no banco do passageiro orgulhoso da cria: "sinta como o carro acelera e tudo está em harmonia. Começamos esse carro praticamente do zero". Deu para sentir um pouco da força do "veoitão", dos engates precisos do câmbio e o ronco grave saindo do escapamento.

Dodge Shakedown Challenger (Imagem: FCA / divulgação)

Mas não me convenci. Não me julguem, acho legal que existam nas fabricantes, cada vez mais sisudas e burocratas, uns doidos que gostem de carros o bastante para chegar no chefe, apesar da crise de identidade que vive o automóvel, e dizer: "preciso de algumas centenas de dólares para transformar um Challenger 1971 num carro com pegada moderna". E daí o chefe do cara diz: "ok, vá em frente".

O Shakedown Challenger é carro para ver, mas não ter na minha garagem. Até porque ela já tem lugar reservado para o Plymouth Belvedere II 1967, outra travessura que a Mopar nos deixou guiar.

Plymouth "Hellvedere" 1967 (Imagem: FCA / divulgação)

Se o Shakedown Challenger parece um carro de justiceiro de cinema, o Belvedere continua com a cara de sedã da vovó. Um pouco de pátina na carroceria e no interior, velocímetro e marcador do combustível com aqueles ponteiros cambaleantes de sempre, volante de baquelite com as típicas rachaduras do tempo…Até as rodas são originais, calçadas por pneus mais borrachudos do que os de fábrica.

O que dedura suas más intenções são a alavanca de câmbio alongada e, principalmente, os bancos esportivos, com cintos de cinco pontos. Não fossem eles, nem imaginaríamos que sob o capô há um HEMI 6.2 V8 Supercharged de 717 cv, emprestado do Challenger Hellcat, o que convenientemente apelida o Belvedere de "Hellvedere".

Plymouth "Hellvedere" 1967 (Imagem: FCA / divulgação)

A transformação ainda inclui um diferencial traseiro Dana de deslizamento limitado e suspensões reforçadas. Tudo sai por US$ 60 mil, algo em torno de R$ 250 mil.

Ao girar a chave, o ronco que surge mal me deixa escutar um conselho importante de Neil Young Jr., chefe de engenharia da Mopar: "quando fizermos o retorno, com o volante esterçado, não abuse do acelerador". Ou seja, nada de controle de tração para amenizar a potência despejada nas rodas traseiras. Vacilou, roda.

A embreagem é pesada, mas de curso curto. O câmbio Tremec Magnum de seis marchas é o mais curto, preciso e rústico que já experimentei em 12 anos de jornalismo automotivo. Alongada, a alavanca deixa a manopla (que parece um mini bola de sinuca) bem perto do motorista. O volante tem o diâmetro enorme.

Plymouth "Hellvedere" 1967 (Rodrigo Mora)

Saio do estacionamento para a avenida na boa. Tenho poucos minutos com o Hellvedere, mas é preciso entendê-lo antes de barbarizar. Engato segunda calmamente, e ele aceita suavemente. Deve ser um carro até que amigável no dia a dia.

Bom, dane-se o entrosamento, o medo daqueles colossais 90 kgfm de torque e das rodas traseiras destracionarem. Estico a segunda marcha, meto terceira sem dó do câmbio ou da embreagem e quatro coisas acontecem simultaneamente: o Hellvedere dispara, um ronco escandaloso e cru invade a cabine, solto um palavrão e Young Jr. Dá um sorrisinho de canto de boca, como se pensasse: "viu do que somos capazes. Toma essa, garoto".

Plymouth "Hellvedere" 1967 (Imagem: FCA / divulgação)

O volante é grandão e impreciso, meio bêbado. É preciso corrigi-lo a todo instante apenas para mantê-lo reto. Mas a direção hidráulica se mostra bem macia na hora de virar para o retorno. Penso que deve ser impossível dirigir esse carro de modo esportivo. É muito forte, a direção não acompanha tanta rapidez e não há assistência eletrônica alguma.

Resumindo: esse Belvedere 67 é maravilhoso. Já mencionei como sou fã de restomods? 

 

 

Viagem feita a convite da FCA do Brasil.

Sobre o autor

Rodrigo não Mora apenas nos Clássicos. Em sua trajetória no jornalismo automotivo, já passou por Auto+, iG, G1, Folha de S. Paulo e A Tarde - sempre em busca do que os carros têm a dizer. Hoje, reúne todos - clássicos e novos - nas páginas das revistas Carbono UOMO e Ahead Mag e no seu Instagram, @moranoscarros.

Sobre o blog

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigo mobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.