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Mora nos Clássicos

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Guiamos o 1º Mercedes-Benz Classe A nacional; carro fez revolução na marca

Rodrigo Mora

17/06/2019 07h00

(SÃO PAULO) – Imagine como foi estar na pele do Classe A naquele Salão de Genebra de 1997. Com apenas 3,57 metros de comprimento e 1,72 m de largura, o compacto estreante era minúsculo diante dos tradicionais Classe E e Classe S. Não tinha o glamour do SL ou a firmeza do Classe G. No lugar do luxo, a responsabilidade de provar que a Mercedes-Benz seria capaz de criar outra receita de carro que não aquela formatada com base em tradições e conceitos acumulados desde o Benz Patent-Motorwagen, seu primeiro automóvel, de 1886.

Além de ser o primeiro hatch de uma marca glorificada por sedãs, peruas e conversíveis de tração traseira, ele tinha que lidar com a desconfiança dos entusiastas da Mercedes que descobriram que nele a tração era dianteira. E que os motores eram na transversal. E que, com 1,4 e 1,6 litro de capacidade, eram apenas uma fração dos venerados seis e oito-cilindros do resto da gama.

Fisicamente pequeno, o Classe A foi um gigante no caráter. Incorporou mais de 20 inovações tecnológicas, como o chassi do tipo "sanduíche", que acomodava os componentes mecânicos (motor, transmissão e eixos) numa cavidade entre o habitáculo e o assoalho. O engenhoso recurso não apenas enriquecia a segurança, ao tirar os passageiros da zona de impacto mais crítica nas colisões laterais, como já reservava espaço para futuras baterias no caso de uma eventual versão elétrica – que de fato surgiu, como conceito.

Daí veio o fatídico "teste do alce" imediatamente após seu lançamento, no fim de 1997. A prova realizada pela revista sueca Teknikens Värld consistia em uma mudança abrupta de trajetória e a tentativa de recolocar o carro no traçado original. O Classe A capotou e impôs à Mercedes o maior vexame de sua história.

Mas deu a volta por cima ao ganhar um novo ajuste na suspensão e controle de estabilidade de série, recurso até então inédito em carros de entrada – de mico, passou a ser exemplo. Ao repetir o teste, o Classe A foi aprovado. 

Uma versão alongada veio pouco tempo depois, e dela nasceu o Classe B, em 2005. Foi um dos poucos automóveis do mundo a encarar uma mudança de identidade, deixando de ser monovolume para ser hatch na terceira geração, em 2013. Hoje está na quarta.

No Brasil 

O Classe A já mereceria um lugar em qualquer lista dos carros mais importantes da Mercedes-Benz antes da próxima missão, ainda no início da carreira: ser o primeiro automóvel produzido pela marca fora da Alemanha. (Embora o ML tenha surgido em 1997, produzido nos EUA, tecnicamente é considerado um utilitário).  

Vinte anos após o início da produção brasileira, pusemos as mãos nesse futuro clássico – o primeiro dos 63.448 feitos por aqui até agosto de 2005.  

Ao abrir a porta, sente-se imediatamente aquele cheiro típico de carro guardado, que inebria qualquer colecionador. O bater da porta ainda é firme, e se encontrar ao volante é quase automático, mesmo este não oferecendo ajuste de altura ou de profundidade. É que ele está exatamente onde deveria estar. Nasceu pronto. O banco não precisou de muito mais além de ser apenas confortável.

O acabamento condiz com um automóvel de entrada feito por uma marca premium (que, vale lembrar, era novata no assunto). Tudo correto, mas sem luxos. Exceção feita à forração das portas, quase inteiramente cobertas por um aconchegante tecido que lembra veludo, ou algo do tipo.

Ao girar a chave, o diminuto mas charmoso painel acorda os únicos três ponteiros que estavam escondidos. Um discreto visor acusa a distância já percorrida: pueris 25.278 quilômetros.

– "Podem voltar com o carro amanhã", disse a simpática Beatriz, da Mercedes. Salvos devidos contextos, é como se o Louvre nos emprestasse a Mona Lisa pra enfeitar a parede de casa por uma noite, com a promessa de devolver a pintura no dia seguinte.

Incrédulos, saímos para conhecer e fotografar aquele A 160 Classic Azul Azurita como se tudo que tocávamos – volante, pedais, alavanca do câmbio, seta – fosse de cristal. Afinal, aquilo era uma insubstituível peça histórica.

Mas aos poucos nos soltamos, e o que descobrimos foi um carro agradável de dirigir. Começando pela posição de guiar ímpar: o motorista viaja no alto, mas com o volante à altura do peito, acima da linha de cintura do carro, totalmente na vertical. Não como tipicamente são os monovolumes e SUVs, nos quais o volante sempre olha o motorista de baixo para cima. A direção é leve, com boas respostas e bem justa para um carro de 20 anos.

Nunca foi intenção do motor 1.6 de 99 cv (que depois saltou para 102 cv) emocionar. Mas, suponho que há duas décadas, quando os automóveis e a própria vida eram mais lentos, o Classe A devia ser mais ágil do que parece hoje. Ainda assim, seu comportamento foi adequado para um carro urbano, sem pedir muitas trocas de marcha ao câmbio de engates macios.

Na volta para casa após a sessão de fotos, à noite, Marginal Pinheiros livre e nós dois mais íntimos, deu para sentir como o Classe A flui sereno. Mas quase repeti o tal "teste do alce", para evitar os buracos. Foi quando a suspensão – independente nos dois eixos – se exibiu melhor, mantendo o carro firme nos desvios e macio sobre as irregularidades.

De volta à Mercedes no dia seguinte, 115 quilômetros depois, senti a honra de ter conhecido um Classe A tão importante.

E o alívio de ter devolvido a Mona Lisa sã e salva.

Sobre o autor

Rodrigo não Mora apenas nos Clássicos. Em sua trajetória no jornalismo automotivo, já passou por Auto+, iG, G1, Folha de S. Paulo e A Tarde - sempre em busca do que os carros têm a dizer. Hoje, reúne todos - clássicos e novos - nas páginas das revistas Carbono UOMO e Ahead Mag e no seu Instagram, @moranoscarros.

Sobre o blog

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigo mobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.