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Mora nos Clássicos

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Citroën completa 100 anos com restauração de um Traction Avant no Brasil

Rodrigo Mora

2004-06-20T19:07:00

04/06/2019 07h00

(SÃO PAULO) – O destino deste Traction Avant 11 Legère BL começa a mudar hoje, pois uma profunda restauração promete lhe devolver a elegância de quando saiu da linha de produção, em 1951 – mesmo ano de seu desembarque por aqui. Abandonado há 15 anos, agora saltará direto para o estrelato: foi um dos carros escolhidos no Brasil para comemorar o centenário da Citroën, fundada em 4 de junho de 1919.

(Imagem: Jonathas Russomano / divulgação)

Há exatos cem anos, a marca francesa entregava a primeira unidade do Model A (1919 – 1921), que marca o começo da empresa e inaugura a produção em série na Europa. Depois dele, vieram o Model B, o Model C/C2/C3, o Model C4/C6 e as gamas 8/10/15 antes do Traction Avant aparecer. Revelado em abril e lançado em maio de 1934, não foi o primeiro carro do mundo com tração dianteira (daí o nome), mas foi o pioneiro em unir essa solução então revolucionária e rara a uma carroceria monobloco. E levar tal combinação à produção em escala.

(Imagem: Jonathas Russomano / divulgação)

Nos próximos três meses, esse Traction Avant vai ser desmontado, sua carroceria será lixada, repintada e alinhada e toda a tapeçaria será refeita, assim como a parte elétrica, pois sua fiação perdeu-se há tempos. Isso enquanto motor, câmbio e suspensões forem revisados.

(Imagem: Jonathas Russomano / divulgação)

Jonathas Russomano, que comanda a Vintage Garage Service, responsável pela reforma, acredita que não precisará importar peças da França – onde, por motivos óbvios, há um vasto acervo para reposição. "Mas, se for preciso, serão peças da transmissão ou do freio, sistemas um pouco mais complexos", prevê.

(Imagem: Jonathas Russomano / divulgação)

Sonho e pesadelo

Projetado por André Lefèbvre, desenhado por Flaminio Bertoni e concebido em 18 meses, o Traction Avant foi uma obsessão de André Citroën em provar ao mundo que sua empresa era a mais vanguardista. Entretanto, projetar e construir um veículo tão revolucionário consumiu os recursos financeiros da Citroën até sua falência. Salva pela Michelin, sua principal credora, a fabricante seguiu em frente sem o comando de Citroën, que faleceu (pobre e doente) no dia 3 de julho de 1935, aos 57 anos.

(Imagem: divulgação)

Portanto, o fundador da empresa não viu a evolução do modelo que definiu a essência da Citroën. O Traction Avant estreou com a versão 7, equipada com um motor de 1.303 cm3 e 32 cv, desdobrada nas variantes 7B (1.529 cm3, 35 cv) e 7C (1.911 cm, 46 cv). Depois do 7 veio o 11CV – o número se referia ao sistema europeu de taxação por cavalo-vapor, baseada não na potência, mas no tamanho dos cilindros do motor. O câmbio era de manual, de três marchas, cuja alavanca saía do painel.

(Imagem: divulgação)

Em 1938 foi a vez da versão 15, com motor seis-cilindros, que logo ganhou o apelido de "queen of the road" (rainha da estrada), resultado da soberania e da maciez do rodar, garantidas pela suspensão hidropneumática que misturava óleo e gás.

A Segunda Guerra atravessou o caminho do Traction Avant, que teve o ritmo de produção reduzido em 1940 até para de vez, no final de 1941. As coisas voltaram ao normal lentamente em 1945 com o 11 e com o 15 em 1946. Em julho de 1957, após 23 anos, quatro meses e quase 760 mil exemplares fabricados, o Traction Avant se aposentava.

E para um carro seminal na história do automóvel, ter um Traction Avant hoje até que é acessível. Dá para encontrar um em bom estado por algo em torno de R$ 70 mil. Há carros nacionais sem o mesmo significado histórico vendidos atualmente pelo triplo desse valor (sim, é de Opala e Maverick que estou falando). Porém, gasta-se o mesmo com a restauração se o objetivo é retomar o estado de zero-quilômetro.

O que talvez seja um bom investimento, considerado o grau de raridade de um Traction Avant por aqui. "Deve haver uns 40 como esse no Brasil. Da versão Normale, uns cinco ou seis. Já do modelo Familiare, mais raro, só sei de um", calcula Russomano.

 

Sobre o autor

Rodrigo não Mora apenas nos Clássicos. Em sua trajetória no jornalismo automotivo, já passou por Auto+, iG, G1, Folha de S. Paulo e A Tarde - sempre em busca do que os carros têm a dizer. Hoje, reúne todos - clássicos e novos - nas páginas das revistas Carbono UOMO e Ahead Mag e no seu Instagram, @moranoscarros.

Sobre o blog

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigo mobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.