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Mora nos Clássicos

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Traction Avant, Citroën que adivinhou padrão dos carros atuais, faz 85 anos

Rodrigo Mora

2011-05-20T19:08:00

11/05/2019 08h00

(Imagem: divulgação)

(SÃO PAULO) – Qualquer lista que pretenda elencar os dez carros mais importantes do mundo sem incluir o Citroën Traction Avant está com defeito. Apresentado em abril e lançado em maio de 1934, foi o pioneiro em unir tração dianteira e carroceria monobloco e levar a combinação à larga escala.

E o que isso quer dizer?

Naqueles primórdios tempos do automóvel, a parte mecânica era concebida e produzida por determinada fabricante, que enviava o chassis a outra empresa, denominada encarroçadora. Essa acoplava ambos (chassis e carroceria) e devolvia à fabricante. A estrutura monobloco não apenas elimina esse processo caro e demorado, como transforma a engenharia automotiva ao tornar o carro mais leve, firme, seguro e espaçoso.

(Imagem: divulgação)

Já a tração dianteira dispensa o eixo cardã, responsável por transferir a força gerada pelo motor (geralmente e neste caso na frente do carro) para o eixo traseiro. E sem eixo cardã, o centro de gravidade baixava e aquele túnel central que atravessa longitudinalmente o veículo era eliminado, ampliando o espaço interno.

O que André Lefèbvre, projetista do Traction Avant, fez foi apresentar as duas soluções, que até então não se conheciam. Seu xará, André Citroën, leva o mérito de ter apostado e investido na ousadia de Lefèbvre.

Provavelmente alguma outra marca teria se tocado dos benefícios de um carro com carroceria monobloco e tração dianteira. A inglesa Alvis a partir de 1928, a estadunidense Cord a partir de 1929 e a alemã DKW a partir de 1931 já tinham modelos com tração dianteira – antes do Traction, portanto. Mas o fato é que partiu da Citroën a coragem de tentar algo inédito e em grande escala.

(Imagem: divulgação)

E basta olhar os carros atuais para entender o que o vanguardismo da marca francesa representou: a maioria usa tração dianteira e carroceria monobloco. No mercado brasileiro, todos os modelos até R$ 100 mil – onde está o volume dominante de vendas – apresentam tal concepção.

Queen of the road 

A vida da Citroën começa em 4 de junho de 1919 com o Type A (ou Model A, como queiram), que inaugurou na Europa a produção. Demora 15 anos até que o Traction Avant surja.

Concebido em apenas 18 meses, foi a afirmação da Citroën como fabricante inovadora e questionadora dos padrões convencionais de construção e soluções.

Além da carroceria monobloco e da tração dianteira, o Traction Avant inovava com freios hidráulicos nas quatro rodas e suspensão independente

A estreia ocorre com a versão 7, equipada com um motor de 1.303 cm3 e 32 cv, desdobrada nas variantes 7B (1.529 cm3, 35 cv) e 7C (1.911 cm, 46 cv). Depois do 7 veio o 11CV – o número se referia ao sistema europeu de taxação por cavalo-vapor, baseada não na potência, mas no tamanho dos cilindros do motor. O câmbio era de manual, de três marchas, cuja alavanca saía do painel.

(Imagem: divulgação)

Em 1938 é a vez da versão 15, com motor seis-cilindros, que logo ganha o apelido de "queen of the road" (rainha da estrada), com direito a suspensão hidropneumática, que misturava óleo e gás. Curioso é que luzes de direção era equipamentos opcionais.

Desenhado pelo escultor italiano Flaminio Bertoni, o Traction tinha maçanetas inspiradas na Art Deco, evidenciando a obsessão de Citroen pela união de forma e função. Era possível escolher entre as carrocerias Berline (sedã), Faux Cabriolet (conversível) e Roadster (conversível de dois lugares).

(Imagem: divulgação)

A Segunda Guerra atravessa o caminho do Traction Avant, que tem o ritmo de produção reduzido em 1940 até para de vez, no final de 1941. As coisas voltam ao normal lentamente em 1945 com o 11 e com o 15 em 1946.

O problema é que os custos de desenvolvimento e da reforma da fábrica para produzi-lo devoraram os recursos financeiros da Citroën, que vai à falência naquele mesmo ano. Principal credora, a Michelin assume o controle da Citroën. Talvez por isso o protótipo 22, dotado de um V8, jamais tenha sido produzido – embora tenha tido preços anunciados, publicidade encomendada e testes realizados.

Em julho de 1957, após 23 anos, quarto meses e quase 760 mil exemplares fabricados, o Traction Avant se aposentava.

(Imagem: divulgação)

 

Sobre o autor

Rodrigo não Mora apenas nos Clássicos. Em sua trajetória no jornalismo automotivo, já passou por Auto+, iG, G1, Folha de S. Paulo e A Tarde - sempre em busca do que os carros têm a dizer. Hoje, reúne todos - clássicos e novos - nas páginas das revistas Carbono UOMO e Ahead Mag e no seu Instagram, @moranoscarros.

Sobre o blog

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigo mobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.