Topo
Mora nos Clássicos

Mora nos Clássicos

Carro mais caro do mundo, La Voiture Noire empresta nome de Bugatti perdido

Rodrigo Mora

2009-03-20T19:08:00

09/03/2019 08h00

(SÃO PAULO) – Como se Chiron e Divo não fossem excêntricos e exclusivos o bastante, a Bugatti apresentou no Salão de Genebra o La Voiture Noire, limitado a apenas uma unidade. Rumores indicam que a estrela do evento suíço já foi vendida para Ferdinand Piëch, ex-CEO e ex-chefe do conselho do Grupo Volkswagen (que detém a Bugatti) e neto de Ferdinand Porsche, por € 11 milhões – montante que o elege carro zero-quilômetro mais caro do mundo.

(Entre os clássicos, há uma lista de modelos mais caros que o novo Bugatti, vale lembrar).

La Voiture Noire ficará a partir de agora famoso por isso: é aquele superesportivo todo preto, baseado no Chiron, revelado em Genebra e vendido a um multimilionário da família Porsche. Mas La Voiture Noire (o carro preto, em francês) remete ao Type 57 Atlantic, possivelmente o mais icônico Bugatti.

"Pope Atlantic" (Imagem: divulgação)

Num movimento rumo à modernização da gama da marca francesa – fundada há 110 anos, em Molsheim -, Jean Bugatti, filho do fundador Ettore, projetou o Type 57. Corria o começo dos anos 1930, e a ideia era simplificar a oferta com um modelo básico que desse origem a parentes. Assim nasceram o Galibier (sedã de quatro portas), o Stelvio (conversível), o Ventoux (sedã de duas portas) e o Atalante (cupê). Quando a produção chegou ao fim, em 1940, cerca de 800 Type 57 haviam sido fabricados.

"Holzschuh Atlantic" (Imagem: divulgação)

No meio dessa trajetória do Type 57 surge o conceito Aérolithe, em 1935. Tal era a ousadia de Jean que a carroceria do protótipo era feita em Elektron, um composto aeronáutico muito rígido e leve, porém altamente inflamável se as partes do corpo do carro fossem tradicionalmente soldadas. Foram, então, rebitadas, daí essa fenda que percorre o teto e o capô do veículo.

O Aérolithe virou realidade em 1936, como uma variante exclusivíssima do Type 57. O sobrenome Atlantic foi uma homenagem a Jean Mermoz, aviador amigo de Jean que morreu ao retornar de uma travessia sobre o oceano Atlântico. O motor tinha 3.257 cc, oito cilindros em linha e rendia assombrosos 200 cavalos de potência na versão sobrealimentada SC. O longo capô embaralhava a noção do tamanho do Type 57 Atlantic, que tinha apenas 3,70 metros de comprimento. Por uma questão de estilo, aquela costura dorsal foi mantida nos exemplares de produção, feitos em alumínio.

Atlantic "Rothschild Atlantic" (Imagem: divulgação)

Apenas quatro foram manufaturados e nenhum é igual aos outros. O primeiro, chassis número 57.374, foi vendido para o banqueiro inglês Victor Rothschild e é conhecido por "Rothschild Atlantic". O terceiro, chassis 57.473, foi entregue a um francês chamado Jacques Holzschuh, que tempos depois vendeu o carro a um colecionador. Ao tentar atravessar um cruzamento de nível, esse colecionador foi atingido por um trem e morreu, enquanto o Bugatti fora totalmente destruído. Décadas depois, o "Holzschuh Atlantic" foi restaurado. O estilista Ralph Lauren é dono do último Atlantic, chassis número 57.591, finalizado em maio de 1938 e conhecido hoje como "Pope Atlantic".

Jean Bugatti ficou com o segundo exemplar, chassis número 57.453, apelidado de…"La Voiture Noire".

Bugatti Type 57 Atlantic La Voiture Noir (Imagem: divulgação)

Foi o carro usado para fotos de publicidade e que apareceu em eventos automobilísticos, como os salões de Lyon e Nice. Ocorre que ninguém sabe do paradeiro desse exemplar depois de 1938. Especula-se que o mais provável é que tenham escondido o "La Voiture Noire" quando os alemães, durante a Segunda Guerra Mundial, invadiram a Alsácia.

Em 2010, o "Rothschild Atlantic" trocou de mãos e foi parar na garagem do CEO do Walmart, Rob Walton, por estimados US$ 40 milhões (valor e comprador nunca foram revelados oficialmente).

Se o "La Voiture Noire" aparecer, estima-se que possa valer € 100 milhões – ou quase dez La Voiture Noire novinhos. 

 

 

Sobre o autor

Rodrigo não Mora apenas nos Clássicos. Em sua trajetória no jornalismo automotivo, já passou por Auto+, iG, G1, Folha de S. Paulo e A Tarde - sempre em busca do que os carros têm a dizer. Hoje, reúne todos - clássicos e novos - nas páginas das revistas Carbono UOMO e Ahead Mag e no seu Instagram, @moranoscarros.

Sobre o blog

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigo mobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.