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Esportivo brasileiro repousa em garagem secreta da Audi na Alemanha

Rodrigo Mora

01/03/2018 04h00

Cupê brasileiro foi incorporado ao acervo da Audi Tradition em 2009

É sabido por poucos: um raro DKW GT Malzoni pertence ao acervo de carros clássicos da Audi. Mas antes de contar como o esportivo foi parar lá, é preciso explicar quem foi Rino Malzoni e o que é o Audi Tradition, um paraíso para qualquer fã de carro antigo localizado em Ingolstadt, na Alemanha.

Genaro Domenico Nuncio Malzoni nasceu na Itália, em 1917, e desembarcou no Brasil em 1922. Amante de carros e dono de uma vida financeira saudável, sempre customizava seus automóveis – BMW, Austin, Maserati, o que fosse. Até que resolveu construir o seu próprio.

Dentro de um galpão na cidade de Matão (SP) saiu o primeiro deles. O GT Malzoni foi revelado no Salão do Automóvel de 1964 como modelo 1965. Tinha mecânica DKW (motor de 1 litro, três cilindros, dois tempos, 60 cv, disponível no Brasil porque a Vemag construía aqui os DKW) e a finalidade de ser apenas um carro de corrida. Quis o destino que ele virasse também um automóvel de passeio, tendo entre 43 e 45 unidades produzidas em 1966.

"No final daquele ano, o molde usado para a produção do GT Malzoni, feito originalmente para produzir poucas unidades, começou a apresentar alguns problemas e precisou ser substituído", conta o jornalista Jorge Meditsch no livro "Rino Malzoni – Uma Vida Para o Automóvel". Assim surgia o Puma DKW, em 1967 — talvez a criação mais famosa de Rino.

Veículo teve pouquíssimas unidades produzidas, todas com motor DKW

Malzoni jamais imaginaria que um de seus carros sairia da pacata Matão para Ingolstadt. Lá fica a sede da Audi e também seu museu, o Audi Museum Mobile. Que conta, através de automóveis e motos, a história da indústria automotiva alemã, destacando os acontecimentos que levaram à criação, em 1932, da Auto Union, grupo formado a partir da fusão das marcas Audi, DKW, Horch e Wanderer – daí o símbolo da fabricante do A3 ser composto por quatro argolas.

Perto dali fica o Audi Tradition. O local não é aberto ao público, e funciona como uma espécie de suporte para o Museum Mobile, servindo como oficina e garagem do que não está sendo exibido. Fica lá, por exemplo, um dos quatro RS 2 sedãs produzidos, o primeiro A4, alguns R18 vencedores das 24 Horas de Le Mans, e outras coisas do tipo. Poucos são os convidados que tem a honra de conhecer o local.

Logo um carro de concepção puramente brasileira despertou interesse no departamento de preservação histórica de uma das maiores marcas do mundo simplesmente por usar mecânica DKW, que vem a ser um dos pilares do que é a Audi hoje. Sem contar o fato de pouquíssimas exemplares terem sido produzidas.

Os lendários Audi Quattro de rali estão no Audi Tradition, em Ingolstadt

Como um GT Malzoni foi parar lá?

Reconhecido devoto da DKW, o jornalista Flavio Gomes procurou a Audi Tradition em julho de 2007 com uma pergunta: "querem ficar com meu DKW de corrida?". A resposta foi não, mas Peter Kober, responsável pelo acervo, disse ter interesse em um GT Malzoni.

"O carro que eu queria que fosse para lá é o que correu as Mil Milhas de 1966 em Interlagos, pilotado por Emerson Fittipaldi e Jan Balder", conta Gomes.

Restauração do GT Malzoni levou dois anos para ser concluída

Pois no fim daquele ano Kober e um colega vieram ao Brasil em busca de um Malzoni GT.

"Nós estávamos procurando um GT Malzoni e o Flavio se dispôs a ajudar. Até que ele achou um abandonado em um celeiro na fronteira com o Uruguai. Semanas depois ele me escreveu contando que misteriosamente não havia mais carro, nem celeiro, mas que eu deveria ficar tranquilo porque ele encontraria outro. Quatro semanas depois, ele achou o GT Malzoni que hoje está no Audi Tradition", relembra Kober, invejado por muitos pelo emprego de botar aqueles Audis pra dormir todos os dias.

O processo de restauração do cupê durou quase dois anos. O GT Malzoni só foi estacionado como troféu no Audi Museum Mobile em novembro de 2009.

E o Rino?

Malzoni ainda assinou outras criações, como o Puma GTB, o GT 4R e o Passat Malzoni — este sua última arte.

"A indústria de larga escala engoliu esses artesãos. Esses caras eram personagens de um tempo muito especifico da indústria nacional, em que não havia nada, e de repente passou a haver tudo", reflete Gomes.

Rino morreu em 1979 sem, infelizmente, ter sido um dos poucos visitantes da tal garagem secreta da Audi.

Quanto ao GT Malzoni, Kober acaba de me avisar: nada de eventos ou badalações neste ano. Vai ficar quietinho, ao lado de outros DKW brasileiros, o Belcar e o Fissore.

Sobre o autor

Rodrigo não Mora apenas nos Clássicos. Em sua trajetória no jornalismo automotivo, já passou por Auto+, iG, G1, Folha de S. Paulo e A Tarde - sempre em busca do que os carros têm a dizer. Hoje, reúne todos - clássicos e novos - nas páginas das revistas Carbono UOMO e Ahead Mag e no seu Instagram, @moranoscarros.

Sobre o blog

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigo mobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.

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