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Mora nos Clássicos

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Lado B da Itália: conheça três marcas não tão famosas quanto Fiat e Ferrari

Rodrigo Mora

19/10/2019 07h00

(SÃO PAULO) – Conterrâneas, Fiat e Pirelli estreitaram laços em 1927, quando Giovanni Agnelli fundou o Istituto Finanziario Industriale – uma holding criada para administrar suas diversas empresas do setor industrial, sendo a fabricante de veículos a principal – e a produtora de pneus se tornou um acionista minoritário. A relação se aprofundou em 1955, quando se associaram à também italiana Bianchi, que nasceu em 1885 fazendo bicicletas, para formar a Autobianchi.

Autobianchi Bianchina (Imagem: Bonhams/divulgação)

Bianchina foi o primeiro modelo da nova marca de automóveis, que basicamente era uma plataforma de experimentações da Fiat. Tal como o estreante, os sucessores Primula, Stellina, A111 e A112 partiam de modelos da companhia fundada por Agnelli em 1899 e recebiam alguns requintes.

Autobianchi A112 (Imagem: divulgação)

Lançado em 1969, o A112 foi o mais famoso. Com 3,23 m de comprimento e 1,48 m de largura, aprendeu com o Mini que a melhor configuração para carros tão diminutos era motor transversal com tração dianteira, predominante até hoje. Seu motor era um quatro-cilindros de 903 cm3 e 44 cv, que na versão esportiva Abarth saltava para 982 cm3 e 58 cv. Este é considerado por muitos o verdadeiro primeiro hot hatch, fama que o VW Golf GTI tomou para si na década de 1970.

A112 Abarth (Imagem: divulgação)

Após 17 anos em linha e mais de 1,2 milhão de unidades produzidas, em 1986 o A112 deu lugar ao Y10, baseado no Fiat Panda. Sob controle da Lancia – outra marca de luxo do grupo Fiat – desde 1969, a Autobianchi foi descontinuada em 1996.

Y10 também levava a marca Lancia fora da Itália (Imagem: divulgação)

Já a De Tomaso nasceu, em 1955, da paixão de Alejandro de Tomaso por carros e corridas. Depois de uma tentativa frustrada de ser piloto de Fórmula 1, o imigrante argentino fundou a companhia que leva seu nome, que começou produzindo protótipos e carros de corrida.

O primeiro carro de passeio foi o Vallelunga, um esportivo de motor central e produção limitadíssima: estima-se que apenas 58 foram construídos entre 1964 e 1968, sendo os primeiros em alumínio e os seguintes em fibra de vidro.

De Tomaso Vallelunga (Imagem: Bonhams/divulgação)

Com o Mangusta, de 1967, a De Tomaso experimentou a produção em maior escala: 400 desses foram fabricados até 1971. E se o Vallelunga usava um motor Ford 1.5 de quatro cilindros de origem europeia, o Mangusta marca a chegada dos poderosos Ford V8 do mercado norte-americano.

De Tomaso Mangusta (Imagem: Bonhams/divulgação)

E foi um V8 da Ford de 5,8 litros e 330 cv que equipou o Pantera, o De Tomaso mais famoso e reproduzido, somando cerca de 7.260 exemplares entre 1971 e 1993. Um acordo com a Ford introduziu o Pantera nos EUA via concessionárias da fabricante americana.

Com motor instalado entre os bancos e o eixo traseiro, tração nas rodas de trás e câmbio manual (cinco marchas), o Pantera demandava habilidade e respeito do motorista. E era um belo carro.

Seu problema era não ser muito confiável, a ponto de um dos seus donos chegar a disparar três tiros contra seu Pantera zero-quilômetro, que simplesmente não dava partida. Esse sujeito era Elvis Presley.

De Tomaso Pantera (Imagem: divulgação)

Há notícia de poucos Panteras no Brasil, sendo um deles anunciado recentemente por R$ 600 mil.

De Tomaso Pantera GT5 (Imagem: divulgação)

Outros modelos de menor relevância foram o Deauville (sedã de quatro portas quase uma cópia do Jaguar XJ6) e o Longchamp, sua versão duas portas, ambos mantendo o motor Ford. O último modelo foi o Guará, roadster equipado com motor BMW.

Dona da Maserati

Apesar de começar como uma empresa independente, pequena diante das tradicionais fabricantes de automóveis, a De Tomaso gozou de prestígio. Seus carros eram desenhados por renomados estilistas. Giorgetto Giugiaro é autor do Mangusta, e também de modelos como Fiat Uno, VW Passat, VW Golf, BMW M1 e DeLorean, apenas citando alguns de uma lista com cerca de 200 modelos.

Tom Tjaarda fez o Pantera, o Longchamp e o Deauville para a De Tomaso, mas Fiat, Ferrari e Mercedes também foram suas clientes.

De Tomaso Longchamp (Imagem: divulgação)

Em 1976, chegou a comprar a Maserati, que então pertencia à Citroën. Dessa fase são modelos como o Kyalami – um Longchamp redesenhado e equipado com um V8 da própria Maserati –, Biturbo e Shamal.

Em 2004, a De Tomaso chegou ao fim. Contudo, em 2009 a marca foi comprada por um ex-executivo da Fiat, que chegou a apresentar um novo modelo no Salão de Genebra de 2011, mas em 2012 a empresa foi posta à venda. Em outra reviravolta, um grupo chinês de investimento, Team Venture, comprou a De Tomaso e apresentou seu primeiro modelo no último festival de Goodwood. Limitado a 72 unidades, o P72 custará £ 662 mil (R$ 3,5 milhões).

De Tomaso P72 (Imagem: divulgação)

Ferrari e De Tomaso nasceram na Itália. A Fiat, em Turim. Já a Isotta Fraschini foi fundada em Milão no ano de 1900 por Cesare Isotta e os irmãos Vincenzo, Antonio, e Oreste Fraschini. O propósito inicial era "importar, vender e consertar carros".

Logo no início da carreira, a Isotta Franschini se envolveu com corridas, vencendo algumas, inclusive. Seu auge foi nos anos 1920, vendendo carros para a cada vez mais rica classe média norte-americana. A marca era tão popular que do Papa a Mussolini estavam entre seus clientes.

O primeiro tombo veio com a crise de 1929. A Segunda Guerra Mundial foi o segundo. Quem emergiu dela vivo se concentrou em carros compactos e baratos, como VW Fusca, Citroën 2CV e Renault 4L.

Mas a Isotta Fraschini foi na contramão com o 8C Monterosa, um carro de US$ 10 mil, o dobro que custava o Cadillac mais caro da época. Sua concepção era um tanto bizarra: carroceria em alumínio, suspensão de borracha e um V8 instalado na traseira. Apenas cinco foram produzidos, marcando o fim da Isotta enquanto fabricante de automóveis.

Isotta Fraschini 8C Monterosa (Imagem: Grand Basel/divulgação)

 

Sobre o autor

Rodrigo não Mora apenas nos Clássicos. Em sua trajetória no jornalismo automotivo, já passou por Auto+, iG, G1, Folha de S. Paulo e A Tarde - sempre em busca do que os carros têm a dizer. Hoje, reúne todos - clássicos e novos - nas páginas das revistas Carbono UOMO e Ahead Mag e no seu Instagram, @moranoscarros.

Sobre o blog

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigo mobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.