Mora nos Clássicos

Que fim levou a Mercedes de Hitler?

Rodrigo Mora

18/04/2018 07h00

Esse Mercedes 770K Grosser Offener Tourenwagen já levou Hitler pra cima e pra baixo nos seus compromissos oficiais

Em 17 de janeiro, um Mercedes-Benz 1939 que supostamente pertencera a Adolf Hitler foi a leilão pelas mãos da Worldwide Auctioneers. A casa de leilões norte-americana pediu US$ 10 milhões pelo carro (que tem um nome um tanto comprido: 770K Grosser Offener Tourenwagen), mas nenhuma oferta passou de US$ 7 milhões. Encalhou, portanto.

A Worldwide descreveu a limusine alemã como “o automóvel mais historicamente significativo já oferecido para venda pública”. Apresentou documentos provando que o chassis 189744 foi encomendada por Erich Kempka, um membro do partido nazista que serviu como motorista de Hitler, especialmente para o Führer; revelou fotos dele no carro em eventos sociais do governo; exibiu registros da agenda do dito cujo, que em 18 de junho de 1940 levou Hitler e o ditador italiano Benito Mussolini para um passeio. Nada disso convenceu os colecionadores.

Por que, afinal, um carro com essa carga histórica não despertou disputas calorosas na plateia, gente pulando cadeiras e se jogando na frente dele pra ninguém levar, ou coisas do tipo? Encalhou porque desconfiaram da procedência “hitleriana” ou justamente por ter pertencido a um dos maiores vilões da história da humanidade?

A epopeia desse Mercedes e de tantos outros que oportunistas de plantão cravam ser de Hitler levou o estadunidense Robert Klara a escrever um livro. The Devil’s Mercedes: The Bizarre and Disturbing Adventures of Hitler’s Limousine in America conta a história de outro 770K Grosser Offener Tourenwagen, igualmente acoplado a Hitler, que foi parar nos EUA – e hoje repousa num museu do Canadá.

Trocamos, Klara e eu, alguns e-mails nos quais ele explica parte da confusão.

“Depois da Guerra, alguns 770K se passaram por carro pessoal de Hitler simplesmente porque haviam sido encontrados na Alemanha, ou porque uma ordem de compra dos arquivos da Daimler mencionava a Chancelaria do Reich. Mas tal documento apenas indica a possibilidade de Hitler ter rodado com o carro, não a prova de que ele o fez. A hierarquia nazista usava um sistema de frota no qual os funcionários compartilhavam as limusines. Tem sido notoriamente difícil provar conclusivamente quais Hitler usou, algo que exige tanto documentos quanto fotografias que mostrem o exato carro, considerando que os 770Ks foram construídos à mão e houve pequenas variações entre eles. De qualquer forma, o carro que foi leiloado pela Worldwide é legítimo: Hitler usou-o. Me deparei com essa limusine na pesquisa de meu livro, e sua ligação com Hitler foi documentada de forma conclusiva pelo falecido Ludwig Kosche, bibliotecário de museus que era a principal autoridade nesses assuntos”.

Mas, para o historiador, o principal desafio que acompanha esses carros é que qualquer coisa que pertencia a Hitler – sobretudo uma limusine de 6,70 metros de comprimento, 2,13 m de largura e 3,5 toneladas, deliberadamente usada para simbolizar o temível poder do Terceiro Reich – é, por definição, um “artefato tóxico”, na suas palavras.

“Isso não quer dizer que o carro não tenha valor histórico – ao contrário, tem um tremendo valor histórico. Mas minha opinião pessoal é que esse valor seria melhor percebido se o carro estivesse na coleção de um museu, que assume a responsabilidade de explicar artefatos carregados como este e apresentá-los de uma maneira que seria instrutiva para o público. Alguns colecionadores particulares podem possuir tais habilidades, mas não muitos. Colecionadores sóbrios fariam melhor gastando seus milhões em um automóvel menos polarizado que este”, conclui Klara.

Faz sentido. O que fazer com um carro que foi de Hitler, afinal? Como sair da garagem num domingo ensolarado, filhos no banco de trás, e não ter marteladas na cabeça alucinações do tipo “foi nesse banco que aquele puto lia relatórios dando conta de quão bem-sucedida foi aquela experiência do Mengele, em que prisioneiros de Auschwitz eram intencionalmente expostos ao extremo frio pro médico nazista registrar o ponto de explosão do pulmão humano”.

Claro que o carro nada tem a ver com tanta atrocidade. Como todo carro, é uma peça inanimada que, na essência, te leva de um lugar ao outro. Mas é como se houvesse nele uma sujeira psicológica irremovível. Talvez seja mesmo um carro de museu, não o de uma garagem qualquer.

Porque, provavelmente, só um museu daria conta de contar a história desse Mercedes. Consta que o último desfile do 770K de Hitler foi em 4 de maio de 1941, na celebração da conquista da Iugoslávia e da Grécia. Em 15 de julho de 1943, o conversível volta para Sindelfingen para manutenção – é seu último registro oficial sob a propriedade do Reich de que sem tem notícia.

Daí em diante, a vida do 770K vira uma bagunça.

Resumindo: terminada a Segunda Guerra, em 1945, as Forças Armadas dos EUA tomam o 770K de Hitler para si e o despejam numa garagem na base de Le Havre, na França. Do abandono em um canal na Antuérpia, vai pulando de mãos em mãos e, após nove proprietários, chega ao frustrado leilão.

Por anda hoje, após tal rejeição, nem a Worldwide responde.

 

Sobre o autor

Rodrigo não Mora apenas nos Clássicos. Em sua trajetória no jornalismo automotivo já atuou em portais como iG, G1 e pela Folha de S. Paulo, atuando atualmente como editor do caderno de automóveis do Jornal A Tarde.

Sobre o blog

O blog Mora nos Clássicos contará as grandes histórias sobre as pessoas e os carros do universo antigo mobilista. Nesse percurso, visitará museus, eventos e encontros de automóveis antigos - com um pouco de sorte, dirigirá alguns deles também.

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